quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Episódio 20


Marie, Lui e Sebastian continuavam hospedados no apartamento de Raquel e Bernardo. Sabiam que até o Ragnarok não poderiam ir embora.

Bernardo sabia que agora tinha poderes suficientes para não precisar temer qualquer ameaça de onde quer que viesse. No entanto, não entendia porque uma criatura que dizia amá-lo, agora queria vê-lo morto. A angústia tomava conta dele. Apesar das visões que teve e das ameaças que acabava de presenciar, Raquel tinha uma sensação estranha com relação à Lívia. Sabia que ela agora era perigosa, mas sabia também que aquela não era a essência dela. Em suas premonições viu Bernardo e Lívia envolvidos, sabia que uma atração existia entre eles e aquilo lhe causava dor e raiva. Se Bernardo agora estava com ódio de Lívia, Raquel também não estava disposta a mudar este sentimento do coração de seu lobo. A paixão que tinha por ele era insana e egoísta.

Raquel olhou para Bernardo com os olhos cheios de libido. Aproximou-se dele deslizando a mão maliciosamente por seu tórax. Pela primeira vez Bernardo deixou que aquela excitação tomasse conta de seu corpo sem se transformar em lobo.

Faziam amor como um casal de humanos, quando Marie começou a bater insistentemente à porta do quarto. Irritado com a interrupção daquele momento único, Bernardo abriu a porta. Marie, inegavelmente assustada, disse: Lívia está aqui. Sinto a presença dela, mas não posso vê-la. Ao olharem para trás viram Lívia com as garras felinas no pescoço de Raquel. Asas enormes apareceram nas costas de Lívia. Os olhos azuis da felina/falcão agora estavam vermelhos e demonstravam um ódio que antes não existia.  Raquel morrerá se você não se entregar a Cirus antes do Ragnarok, Bernardo. A escolha é sua. Dizendo isso, Lívia levou Raquel pela porta da varanda do apartamento do nono andar.

sábado, 5 de novembro de 2011

Episódio 19

Lívia pairava sobre os lobos sem poder ser alcançada por eles. Sobre as costas do corpo dilacerado havia um arco e nas mãos uma flecha de prata que não chegou a ser disparada.
“Cirus o fez como fez a mim, e o enviou para impedir que você fosse coroado, já que acreditava que eu havia fracassado.” Disse Lívia para o lobo branco. Os lobos então recuaram.
“Este homem é exatamente como a fera que eu era há algum tempo atrás. Totalmente desesperado, faminto e sem controle. Sozinho jamais impediria sua coroação. Haverá o momento correto para o embate.” Lívia estava diferente, falava com uma determinação que não existia antes.
 “Tornei-me mais forte pela abstinência e adquiri outros poderes pelas maõs da própria Freya. Vim para avisá-los: O dia do Novo Ragnarok está próximo. Será a luta definitiva entre os descendentes de Fenris e os de Freya. Muito sangue será derramado, mas minha única certeza é a de que todos os lobos serão exterminados.”
Neste momento os trezentos lobos deram o bote em Lívia, que simplesmente desapareceu, deixando-os perplexos. Bernardo estava com os pelos eriçados. “No que depender de mim isto jamais acontecerá!” gritou.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Episódio 18

Lívia foi para bem longe do litoral. Não se ouviu mais falar dela. O tempo passou. Hoje Bernardo completa trinta e três anos e herdará o trono de Arkan. Receberá também poderes superiores aos de qualquer lobo, inclusive de Fenris, que não é exatamente um lobo, mas um deus.
Após as tentativas malsucedidas de aniquilar Lívia, Fenris concluiu que ela não oferecia mais perigo. Cirus havia escolhido mal; sua representante foi forte o suficiente para lutar contra seus instintos naturais e afastou-se de seu objetivo.  
A Mata Atlântica estava cheia de lobos vindos de várias partes do mundo para presenciar aquele momento histórico. Depois de duzentos anos teriam novamente um líder e seriam novamente um raça unida e forte. Os lobos de hoje não eram predadores como seus ancestrais. Aprenderam a viver integrados aos humanos e a natureza. Não matavam animais porque aprenderam a se alimentar como os humanos. Precisavam das florestas para não ficar tão expostos quando transformados e não assustarem os humanos que ainda têm certas limitações em aceitar o novo, o diferente.

Tudo foi meticulosamente organizado para a coroação. Havia mais de trezentos lobos reunidos na Mata. Já era quase meia-noite. Bernardo receberia enfim os poderes de Arkan. O céu estava limpo, como previsto duzentos anos atrás. A lua parecia maior do que de costume, como se estivesse mais próxima da Terra.
Exatamente à meia-noite uma luz forte vinda diretamente da Lua envolveu o corpo de Bernardo. Aos olhos dos trezentos de sua raça ele transformou-se no glorioso lobo branco, recebendo poderes ainda desconhecidos. Após este momento um corpo dilacerado caiu de uma árvore e Lívia apareceu flutuando no ar com asas de falcão. Os trezentos expectadores transformaram-se naquele momento e armaram o bote contra Lívia.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Episódio 17

A sensação era de desespero. Lívia sabia que tinha que aguentar o máximo que pudesse, pois se deixasse de ser espectro os lobos a encontrariam e a matariam.
Bernardo voltou a casa de Lívia sozinho. Atravessou a cozinha e próximo à porta do quintal disse: “Sei que você está aqui. Posso sentir seu cheiro. Eu jamais permitirei que matem você, mas ainda não tenho poderes suficientes para agir contrário às ordens de Fenris. Vá embora para bem longe da Mata Atlântica. Minha coroação está próxima, quando eu estiver mais forte poderei lutar de igual para igual com Fenris, e ele não poderá mais me dar ordens. Salve-se, porque não suportarei vê-la morrer.” Bernardo estendeu a mãos como se tocasse no rosto de alguém. Lágrimas reais escorriam por entre seus dedos e pelo seu rosto. Beijou a própria mão, sentindo o gosto salgado das lágrimas de Lívia. Neste momento sentiu uma sensação estranha, como se todo o seu corpo estivesse adormecido. Depois veio o formigamento e voltou ao normal.
O perfume de Lívia não estava mais presente no ar. Bernardo sabia que ela tinha partido e levado junto um pedaço de seu coração.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Episódio 16

O que poderia ser pior do que a fome e a sede? Talvez ver a criatura que amava morta por suas mãos fosse pior. Aqueles instintos primários despertavam a raiva de Lívia e a vontade de ser violenta, mas o fato de ter consciência de sua condição ajudavam em sua luta interior.

Kara simplesmente não desistia de sua missão. Como não havia portas que a impedissem de entrar, falava com Lívia o tempo todo, como se fosse um surto de esquizofrenia.

Enquanto isso a alcateia, sob as ordens de Fenris, já havia decido visitar a casa de Lívia para exterminá-la. Bernardo e Raquel não eram a favor do ataque, tentavam argumentar, mas em vão. Fenris era um ditador, tinha bons motivos pra defender aquele extermínio e tinha poder para isso.
Lívia estava em seu quarto quando a porta da frente foi arrombada. Os seis lobos entraram. Bernardo e Raquel subiram a frente em direção ao quarto de Lívia, queriam, de certa forma, alertá-la do perigo que corria para que pudesse fugir. Entraram no quarto e não viram ninguém. Lui, Sebastian e Marie subiram logo atrás. Fenris permaneceu no andar térreo. Os lobos farejavam Lívia no quarto. Marie sabia que Lívia estava ali, mas não tinha como atacá-la enquanto ela fosse espectro. O ataque tinha sido em vão. Ao descerem as escadas Fenris disse: “Enquanto este espectro não manifestar sua violência felina não conseguiremos chegar a ela. Ela está conseguindo controlar sua fome, mas não por muito tempo. Quanto atacar de novo estaremos à espreita.”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Episódio 15

Lívia tinha a cabeça cheia de pensamentos contraditórios. Havia guardado à sete chaves a atração que sentia por Bernardo, pois nunca pretendeu magoar Raquel, mas sucumbiu ao beijo e entregou-se à paixão. Apesar das contradições, apenas uma certeza ela tinha: não podia matar Bernardo. Decidiu que enfrentaria a fome e a sede, mas não se alimentaria mais. Estava disposta a viver como espectro, se isso mantivesse Bernardo vivo.
“Parabéns querida!” disse Cirus. “Você realmente me surpreendeu. Soube usar sua inteligência e seu poder de sedução para ganhar a confiança de sua presa. Excelente! Você sabe que, apesar de seus novos dotes, ainda não é capaz de matar Bernardo. Ele é mais forte que você e tem poderes que nem mesmo ele ainda conhece. Temos que ser precavidos. Além disso, precisamos aumentar nosso exército para o dia da grande batalha. Kara, a valquíria, continuará ajudando você a escolher os melhores soldados. Continue com sua missão e em breve terá sua vida humana de volta.” Cirus deu as costas à Lívia e desapareceu.

Lívia ficou extremamente desorientada com as palavras que tinha acabado de ouvir. Sentia que o silêncio a mantinha segura, pelo menos por enquanto, mas sabia que o inferno a aguardava. Pegou sua moto e dirigiu pela Rio-Santos, beirando o litoral, até chegar a Paraty. Parou a moto e ficou observando o mar. Kara apareceu.

“Boa escolha querida. Paraty tem ótimos recrutas. Em breve estará faminta e eu a ajudarei a fazer as melhores escolhas.” Lívia queria ficar sozinha. Estava com raiva e, se pudesse, devoraria kara. Resolveu então ser franca. “Kara, eu não fiz esta escolha. De início não soube lidar com este instinto assassino, mas agora tenho plena consciência dele e decidi que não matarei mais, mesmo que eu esteja condenada a ficar na forma espectral para sempre. Não perca seu tempo comigo.”

Kara deu uma gargalhada. “Sou sua serva, estou aqui para sugerir e seguir suas ordens, mas não se iluda, você não vai conseguir resistir à fome e à sede; é impossível.”

Lívia teve um acesso de raiva. Gritou com todas as forças que ainda tinha, subiu na moto e acelerou. Queria se ver livre daquela criatura.

Já estava bem próximo de Santos quando começou a sentir fome e sede. Sem que pudesse controlar derrapou e deixou a moto cair ligada no acostamento. Lívia era espectro novamente.
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Episódio 14


“Sr. Bernardo, tem mais uma moto próximo a sua vaga de garagem atrapalhando a passagem de outros veículos. Por um acaso ela pertence algum de seus hóspedes?” Perguntou Rubens, o porteiro. “Não, Rubens, não pertence a ninguém daqui de casa.” Respondeu Bernardo. “É minha, precisarei dela enquanto estiver aqui.” Bernardo surpreendeu-se com a voz grave atrás dele. Virou e deparou-se com um enorme lobo cinza de aparência monstruosa. O lobo então foi tomando a forma de um homem de meia idade, cabelos grisalhos, alto, com músculos definidos e traços duros.
“Você parece surpreso, Bernardo, não deveria. Sou Fenris, o deus. Precisei vir pessoalmente, já que, pelo visto, seu pai não lhe ensinou nada de como ser um líder. Diga, para o porteiro não tocar em minha moto e olhar novamente porque ela não está impedindo a passagem de nenhum veículo.”
”Desculpe Rubens, esta moto é nossa sim e já está estacionada corretamente.” Disse Bernardo gentilmente ao interfone. Rubens olhou perplexo para a vaga da garagem. A moto agora estava estacionada atrás da de Bernardo. Ele não havia escutado barulho nenhum na garagem. Não entendia como duas motos poderiam ter sido manobradas tão rápido. Não viu ninguém na garagem. “Desculpe Sr. Bernardo, mas como...?”
A arrogância de Fenris havia desequilibrado emocionalmente Bernardo, principalmente pelo fato de ter criticado seu pai, um sujeito de índole e moral admiráveis. A raiva fazia com que Bernardo tivesse começado uma transformação. Seus olhos estavam cobertos pela negra membrana e seu corpo começava a cobrir-se de pelos.
“Vê o que eu digo! Às vésperas de sua coroação não consegue nem dominar seus instintos mais primários. Você ainda é um fraco e tem muito que aprender. Se  Marcius não lhe ensinou nada, eu ensinarei.”
Neste momento Bernardo já estava na forma do lobo branco preparando o bote para Fenris. Imediatamente uma força invisível jogou-o para o alto. Quando caiu sentia-se sufocar, como se alguém apertasse seu pescoço. “Obrigada pela lealdade Marie, mas este cãozinho não é capaz de me atingir. Entendem agora porque foi necessário que eu viesse pessoalmente?